segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dia dos Professores 2012: Pensamentos

Aos Mentores de Kombato e Kali Silat.

Este artigo será provavelmente bem estranho para muitos, pois contém um “turbilhão” de pensamentos sobre ser professor nos dias de hoje no Brasil. Ao invés de selecionar, triar e editar, resolvi colocá-los todo como um fluxo de pensamento, portanto me desculpem portanto me desculpem por ser tão prolixo desta vez. E por não ter feito a revisão do texto (devem haver erros!)


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Ontem um homem fez um feito extraordinário.

(http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/videos/t/edicoes/v/paraquedista-salta-da-estratosfera-e-quebra-a-barreira-do-som/2189587/) . Agora vamos a uma pergunta que devem responder silenciosamente. Quantos professores foram necessários para que isso acontecesse? Os professores são os tijolos de toda a técnica que ele usou, de tudo que foi construído para que ele chegasse lá, e voltasse para o solo do planeta firme e forte, sem nenhum tipo de lesão. Professores de colégio, seus pais, seu treinador de Kettlebell, tudo. Diversos professores. Diversos pedreiros construindo uma base de conhecimento sólido para que isso fosse feito. O quanto de valor agregado isso representa?

Um conhecimento incalculável. Infinito aos olhos dos que estão conjecturando. Invisível ao homem que não foi ensinado a pensar.

E todos os dias, todos fazemos feitos nos baseando no que nos foi ensinado. E quem nos mostra os caminhos, nossos guias são os professores, tanto os profissionais ou amadores.

Se as datas comemorativas fossem por merecimento, não haveria espaço no calendário para colocar todos os dias os quais estes heróis merecem.

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PORQUE ENSINAR?

Muitos pensam: “Um dia vou ensinar Kombato, ou Kali” pois isso é “bem bacana de ensinar”.  Outros se vêem com a intenção de ajudar a passar a ideia de segurança e defesa (quando pensamos em Kombato), ou alguns pensam em passar filosofia de tribo, luta, beleza e misticismo (do Kali) ou ainda pensam em serem profissionais de uma das duas áreas, tendo uma segunda profissão.

Ou seja: Não importa o motivo, ou o “porque” de você decidir lecionar, mas sim a qualidade do trabalho que está fazendo. Você está dividindo este conhecimento com quem precisa e merece. E é isso que importa.

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OS PROFESSORES E A VIOLÊNCIA

Este é um título, que simplesmente não deveria existir. Mas é a pura e factual verdade.

Anos atrás um coordenador de administração de uma faculdade federal veio me procurar para aprender Kombato. Ele permaneceu horas sobre a ameaça de uma arma nas mãos de um bandido dentro da própria universidade, e não sabia como fazer, como negociar, nada. Passou horas de terror. Esta notícia foi bastante explanada na mídia.Hoje ele já está treinado e qualificado e confiante novamente. Tudo fruto da falta de armamentos na segurança das universidades - sem armamentos, a segurança não teria como parar o agressor. Simples assim. O bandido passeou pela universidade pela segunda vez, assaltou a todos, e uso o professor como refém. Fez tudo como se passeasse em sua própria casa, e saiu quando quis. A marca que ele deixou no professor foi indelével. Mas consegui reconstruir a confiança dele assim mesmo, usando o Kombato.

Desarmamento é o oposto da segurança.

Passados alguns anos, o que vemos? A violência e o risco não apenas aumentou, mas hoje graças aos celulares que filmam, costumam chegar cenas diversas onde podemos assistir alunos agridindo professores e professoras, e jogam cadeiras neles.

Hoje, na tv eu vi uma cena ainda pior. Uma “mãe” (mãe deveria ser um exemplo), bateu em uma professora, por causa da nota de uma filha. Absurdo. (Jornal Hoje, em breve o video estará no ar).

Por razões mais ou menos óbvias, este é um fato que não acontece com os professores de Kombato - mas nós da organização temos que ensinar pessoas a lidar com este tipo de situação.



AS DIVERSAS VIAS

Tenho visto muitos elogios dos alunos para os professores de todas as áreas.

E o mesmo acontece com todos os membros da minha equipe do Kombato. Recebo emails, vejo mensagens de Facebook destinadas a praticamente todos os membros do time. Mas o fato é que ser professor não é apenas um caminho de mão única, mas vários caminhos. A maioria deles nem é enxergado pelo aluno, ou por todos.

Aqui em baixo, estou listando alguns destes caminhos, algumas destas vias.

A VIA DE ENSINAR AO ALUNO
Os alunos percebem o professor como um orientador, um amigo. Isso é mais do que apenas ensinar. Eu sei que é assim que meus alunos me enxergam, e faço o que posso para corresponder. Recebo um salário maior por isso? Não. Sou um professor por puro amor a profissão, e amor verdadeiro aos meus alunos, e também a todos que me pedem auxílio. Faço tudo para ajudá-los e guiá-los de acordo com o Lema do Kombato, Orientá-los no que fazer em momentos de crise, dar soluções, apresentar outras formas de pensar; em muitos momentos ser um terapeuta ou apenas um ouvido amigo. Não existe um só dia ao qual um aluno não me traga uma história, um problema, um cenário no qual eu poderia ajudar. Eu fico feliz por reconhecerem o meu esforço, e me apresentarem estes problemas, pois sem eles eu teria menos motivação para minha profissão. Os membros da equipe são reflexos do que eu faço, são meus olhos, mãos e ouvidos em outros lugares - e por isso sei que elas pensam da mesma forma.

A VIA DE APRENDER
O conhecimento é um rio, que deve sempre fluir, descer para  chegarem novas águas. Estudar, ler livros, pesquisar, estar em contato com os professores mais graduados. Para poder passar conhecimento, devemos sempre aprender. Claro que muitos professores não se atualizam, mas no caso do Kombato, o qual estamos nos mantendo no topo do conhecimento de segurança e defesa, isso é imprescindível. O mundo muda, ele se atualiza, para o bem e para o mal - e nós professores devemos nos preparar fazendo o bem, para enfrentar o mal, que cada vez mais se espalha no mundo, e em especial na nossa pátria.

A VIA DA HIERARQUIA
Muitos alunos nem recordam, mas os professores são liderados por outros professores, por uma organização. Seja lá um colégio, uma universidade, um curso ou uma organização como a nossa. Um professor deve prestar contas a todos. Os clientes dele não são apenas o aluno, mas a organização, assim como a organização tem como clientes os professores e os alunos. Muitas reuniões em grupo, discussões sobre assuntos diversos, decisões fáceis e decisões difíceis, tudo isso é invisível para os alunos. Todos os colégios com boa reputação tem seus nomes fortalecidos pelo trabalho dos professores. Não existe colégio bom com professores ruins. O nome de todas estas escolas foi construído pelos professores. No caso do Kombato não é diferente. Todos os nossos professores carregam o nome de nossa organização. E por este nome lutam, todos os dias.

A VIA DO PROFISSIONAL
Professores são profissionais de qualquer forma, e podem “se matar “para serem os melhores, mas nem sempre receben de acordo. Os professores de Kombato são filiados a organização, e felizmente por isso tem suporte adequado, o que facilita a obtenção de lucro proporcional ao esforço. No entanto, por infelicidade, não é sempre assim para todos os profissionais. Os alunos geralmente reconhecem o trabalho, mas poucas vezes no Brasil, os professores que trabalham para o estado ou município tem seus esforços reconhecidos, o que é muito triste.

A VIA DA FAMÍLIA
Todos os dias fazemos tarefas as quais foram ensinadas por professores. Desde como tomar banho a como escovar os dentes. De como se defender de um soco, a como fazer um cálculo de viga contínua. Toda esta educação veio de nossos pais e professores. Títulos aliás, que muitas vezes se confundem, pois todos os pais são professores, e muitas vezes os professores devem agir como pais.

Desta forma os pais que são professores tem uma “dupla  jornada”. Acontece que educar em casa é ainda mais difícil pois é uma responsabilidade 7 dias por semana, 24 horas por dia. Mas ao menos, na grande maioria das vezes, é pago com amor duplo também - dois alunos e dos pais.

Tenho orgulho de ter tido todos os professores que tive. Alguns tive que literalmente “viajar” para outro pais para poder aprender, outros tive que romper com o conhecimento pré-estabelecido, outros de meus professores já estão falecidos, e outros eu mesmo nem conheci - só através de suas palavras nos livros.

Sem o dedo de um professor para apontar meu caminho, eu nada seria.

Com toda a certeza e convicção.

Muito obrigado a todos os membros da equipe Kombato, e todos os da Kali Silat Brasil que suam (literalmente) para preservar o conhecimento, e para distribui-lo.

Mestre Paulo Albuquerque

Kombato: Amizade, Disciplina, Perseverança, Conhecimento e Cidadania.